Entrada franca!

Entre...pode entrar!!!! Vasculhe tudo!!!!! Se pelo menos durante alguns segundos você parar em algum texto para tentar compreender algo, tentar desvendar o campo semântico de alguma palavra ou até mesmo se emocionar...terei cumprido o meu papel.

sábado, 29 de maio de 2010

Nós

Culpo-a por esses escritos
Não
Não os queria assim
Registro

Culpo-a por ter escolhido a mim
Corpo cristão
Resguardado
Chão
Armazém do pecado

Culpo-a por assim ser tão
Nunca pede nada
É sem hora - madrugada

Toma-me o tempo
Tempo que não é o meu tempo
Meu tempo - ontem
O dela - quando

Gosto do infinitivo
Sou particípio
Ela gerúndio
Subjuntivo
Imperativo

Ah, se ao menos fosse judia
Minha alma, eu acredito
Você , também, acredita...
Todavia
Enterneço-me por ser assim
Minha
Não direi sopro, o que causa em mim
Tudo bem
Você é quem manda
Ignição do meu dia
Diariamente
Chave mestra

Sim, também é guerra
Nem sempre concórdia
Quase sempre discórdia
Respeito
Respeita

Você - oceano - maresia
Eu - rio, riacho, lago - doce
Nós - poesia.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pensamento branco

Gosto do silêncio
Gosto do vazio dele
do incômodo de sua presença
Assim como gosto da folha de papel
em branco
Diz-me tanto
Cabe tanto que
é a sua maior expressão
Encanta-me o impossível
Não a possibilidade do impossível
O imprevisível alicerça meu pensamento
Dá-lhe sopro
Dá-me vida na ausência dela

Domingo de Páscoa.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Escritos

Escrevo, sobretudo, por impulso
Alma inquieta
Sou todo impulso
Acordo na madrugada
Invado seu silêncio
Desafio-a sempre
Perco
Palavras - efemeridade semântica
Acorrentadas na sintaxe
Perdem-se no tempo
Mudam-se com o tempo
Esquecidas algumas

Vingo-me
Noutra esfera
Descontrole dela

Nada do que escrevo é verdade
Nada do que escrevo é espontâneo
Nada do que escrevo é necessário
Nada do que escrevo é límpido

Por que, então, escrevo?
Cretinos!
Acham que já não me perguntei...

Aniversário

Primeiro embrulho: fralda
Segundo: nebulizador
Terceiro: travesseiro de plumas de ganso
Aparelho de pressão
Remédio para pressão
Complemento alimentar
Colchão casca de ovo...
...inexpressão!

Olhou em redor...
Expectativa!
Meio sorriso...
Alegria externa aparente
Felicidade alheia expressa.

Mirou o horizonte
Sentiu, pela vez primeira, saudade...
Na verdade...desejo...
Melhor...esperança.
Era o último embrulho...
...pesava...
...soro fisiológico.

Utilidades para a inutilidade, pensou.

Perguntou-se...
Onde estavam, meu Deus, os potes?
...e os panos de prato?
Nunca os quis tanto...
Nunca foram tão necessários...
...todavia...
Não os pertenciam...mais.

domingo, 16 de maio de 2010

Minha alma

Por que amanheço ao nascer sol?
Por que anoiteço ao pôr-do-sol?
Por que ele - o meu relógio orgânico?
Meu corpo - funcionário dele.

Minha alma - eclipse
autônoma
ar
tabela periódica
carnaval...na rua
eunuco

Minha alma
Minh'alma
Mina
Explosão.

Poesia

Não a poemas
Estrutura
Forma
Métrica
Branco
Livre
Decassílabo...
...corrente.

Sim a poesias
Papel em branco...
...e quanto não há de poesia nele?
E quantas poesias não ficarão presas nele?
Papel em branco
Sinonímia
Poesia liberta.

domingo, 9 de maio de 2010

De volta ao começo.

Acordei cedo para os preparativos. Afinal, não é todo dia que se comemora aniversário. Assim que cruzei seu quarto percebi que o olhar era de busca, procurando algo que se perdeu em algum momento de sua vida, mas que acabava de encontrar naquele instante: eu. Todas as noites ela sentia essa perda...eu também. Era mais que necessário esse afastamento. Ela precisava disso. Eu necessitava.
Não dizia uma só palavra, mas para que palavras quando se tem o olhar. E que olhar!!! Precisava ser rocha nessas horas porque qualquer descuido um maremoto tomaria conta dos meus olhos. Quando miro todos os dias,ela, ali, parada... como a alegria, o amor, o medo...tudo isso transimito pelo seu olhar era tão nítido pra mim. Comunicáva-mos sempre pelo olhar. Eu sabia de suas inquietações, seus desejos seu mal humor. Todavia, seu olhar hoje era de pura expectativa. Parecido quando estamos sentados na plateia de um espetáculo e ainda não sabemos que universo irá nos surpreender quando as cortinas se abrirem. Mas ela sabia...ela sabia que eu nunca iria me esquecer do seu dia.
Assim que cruzei a porta, dei-lhe um beijo na testa e seus bracinhos já iam, como os gestos de um maestro, pedindo um abraço. Aquele abraço era o meu regogizo. Minha fonte de vida. Todas as manhãs, como o ritual do sol. Mas sempre único.
Peguei-a no braço para o banho. E como pesava. A cada dia parecia mais pesada... só no corpo. Alma ultraleve. Alma, de certa forma, já liberta num corpo em estado de letramento. Não há tempo marcado para o aprendizado. Tolas as teorias. Idiotas os teóricos. Nada entendem de alma.
E o banho foi especial, pois o dia era especial. Coloquei fralda limpa. Separei a roupa mais linda para a comemoração. E ficou! Linda! Coloquei-a sentadinha e em seu redor várias almofadas para alicerçar seu corpo...uma verdadeira ilha. Ilhada.
Sabia que ela não gostava de ficar com outras pessoas, mesmo que conhecidas. Estranhava, chorava...queria-me sempre. Queria-me de maneira grave, assim como a criança ao leite materno. Seu sustento. Vida. E para isso usava de algumas artimanhas. Eu até gostava disso. Queria-me como a praia ao sol num dia de verão e céu sem nuvens. Entretanto, naquele momento era necessário. Eu precivasa concluir os preparativos para a festa.
Não demorei. Comprei o bolo de que ela mais gostava. Chocolate. Bolo de chocolate com calda de chocolate e recheio de chocolate...tudo meio amargo. Só isso de amargo que ela gostava. Era sempre doce, mesmo quando não era. E não podia esquecer da vela...ficava muito chateada se não houvesse vela. Era como acender a vida. Comprei a vela de número dois.
Enfim, ficamos a sós. Coloquei uma bancada próxima a ela. Forrei com a toalha mais linda...cheia de flores. A primavera sempre a encantou. Retirei a fatia de bolo de dentro da embalagem.Uma fatia de bolo. Coloquei as velas no lugar, o chapeuzinho com elástico em mim e nela. Apaguei as luzes e cantamos juntos o parabéns. Havia certa dificuldade em aproximar as mãos, mas em alguns casos na vida a tentativa já é uma grande realização. E ela era a pura realização da vida... na minha vida.
Como era costume seu, apagou primeiro a vela de número menor, a de número dois, e por último a vela de número oito. Prometeu no dia em que completou cinquenta anos que a partir daquela data iria começar sempre pela vela de número menor. E há algum tempo esse gesto passou a ser o maior sentido da sua vida.